h1

Hermano Galeano

13 de abril de 2015

Hoje acordei com a notícia de que um grande amigo dos tempos de movimento estudantil havia falecido. Chamava-se Eduardo Galeano e tinha 74 anos de idade humana, embora suponha que essa conta seja outra no mundo das pessoas como Eduardo. Galê foi um amigo muito presente. Não daqueles que sempre te visitam ou vivem te chamando pra sair, mas do tipo que aparece justo quando tu mais precisas de um papo reto. Foi assim quando nos conhecemos. Eu estava numa bad ruminando o baita choque de contradições que o mundo-cão me apresentou no início da militância, de ser um privilegiada por ter as coisas, por saber das coisas, enquanto as pessoas ao meu redor continuavam simplesmente morrendo na merda. Me vendo naquela situação, não fez a menor cerimônia: me encheu de Abraços e com seu jeitão genial foi explicando minhas revoltas, acalentando as inquietudes do meu coração, me enchendo de esperança…
“Você não está só”, dizia ele, um pouco contrariado em me ver encharcando suas palavras amigas. Foi embora em seguida e eu tinha a certeza de que logo mais nos encontraríamos.
Quando me viu mais forte, incentivou minha ida até seu país para que ali a gente começasse a falar de uma tal América latina. Foi curioso esse episódio. Lembro-me que horas antes do meu primeiro vôo internacional, não tinha passaporte, sequer RG, e não sabia falar uma só palavra de seu idioma. Pareceu milagre eu conseguir emitir um novo RG naquele mesmo dia 07. Ainda atônita com essa façanha irresponsável, me deparo com um vendedor de livros na calçada, de onde um título me salta a vista:
“MULHERES”.
Bom agouro, na certa. Tu és foda, Galê!
E que mulheres de força me acompanharam nessa viagem à tua terra, homem! Que dias intensos e inspiradores vivi no teu lugar!
Até fui no Café que costumas frequentar em Montevidéo, mas hoje sei fui até ali, na verdade, para ME encontrar…
E me encontrei quando descobri que o sangue que jorrava de minhas veias abertas é o mesmo do teu, é o mesmo do Jonatahn, é o mesmo de todos nuestros hermanos. Ali me re-conheci na dor e na resistência ancestral dos povos nascidos do solo da deusa-Mãe Pachamama.
Ali Re-nasci.
Que grande lição, meu amigo!
Mas as amarguras da vida não são poucas e sempre teimam em nos perseguir, tu sabes. E eis que em outra bad eu entrei. Que mundo é esse que separa seus irmãos, que mata suas crianças de fome, que nos esfola vivos, nos mantém ignorantes, envenena nossos rios, infertiliza nossa terra, cala nossas mulheres, aprisiona nossa liberdade?
Não, nesse mundo eu não queria viver…
Aí tu vens mais uma vez, com toda a sapiência que com certeza não adquiriste só dessa vida, e me diz assim:

“É UM MUNDO DE MERDA QUE ESTÁ GRÁVIDO DE OUTRO”

Outro mundo onde vale a pena viver e cujo parto dependeria de mim, também, e que talvez eu nunca veja a cara dessa criança mas meus filhos, meus netos e os filhos dos meus netos com certeza veriam. Cara, tu me salvaste com essas palavras!
Porque esse mundo em trabalho de parto ainda é feio demais, sim, mas brilha numa intensidade que me seduz tanto, mas tanto, que faz com que eu queira sempre oferecer o melhor de mim, do que sou e do que busco ser, pra modificar qualquer coisinha que seja.
Nunca te disse, mas hoje toda a minha construção se baseia nessa ideia.
Hoje, ao saber que tu te foste, confesso que fiquei triste à beça não por recusar a morte como um processo natural, mas porque perder um amigo é barra mesmo, a gente nunca tá preparado.
Mas quero que saibas que mesmo eu não sendo muito desse papo de “gratidão”, me sinto na obrigação de te dizer o quanto sou e seguirei sendo grata à tua mão amiga na minha mão.
Infelizmente nosso encontro “material” não teve tempo de acontecer, mas como disse uma outra grande amiga lá no livro das faces, nossa alma se tocou, se abraçou, apoiou uma à outra, e isso já é pra sempre!

Obrigada pelo legado para mim e para os meus, amigo-mestre.

Há braços de sua eterna aprendiz.

* EDUARDO GALEANO, PRESENTE! *

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Lúcio Flávio Pinto

A Agenda Amazônica de um jornalismo de combate

Grupo Ecosol

Grupo de Pesquisa em Economia Solidária

Das Lutas

Coletivo

[PONTO DE PAUTA] para o livre debate.

Destina-se a abordar criticamente acontecimentos relacionados à política, à economia e à cultura no Brasil, na Amazônia e no Pará em contraponto com a visão editorial conservadora dos chamados grandes órgãos de comunicação.

Ginecosofía

Sabiduría Ancestral de las Mujeres

CINE CCBEU

Em fase de treinamento.

Cine Líbero Luxardo

Fundação Cultural do Pará Tancredo Neves

CINE OLYMPIA

Em fase de treinamento.

Centro Cultural SESC Boulevard

Em fase de treinamento.

BLOG DO BARATA

Em fase de treinamento.

Site da Enecos

Em fase de treinamento.

Xingu Vivo

Em fase de treinamento.

Hupomnemata

Em fase de treinamento.

Manuel Dutra

Em fase de treinamento.

%d blogueiros gostam disto: