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Anjo da Guarda

10 de janeiro de 2012

Quem já me acompanhou pelo menos uma vezinha nessa minha missão de retorno pra casa nas madrugadas, com certeza já me ouviu falar dele: Daniel, vulgo Danco, o guarda noturno aqui do Pedro Teixeira City.

Ainda lembro do dia que meu pai me apresentou a ele, recomendando que eu o contactasse toda vez que chegasse tarde da rua, pra que ele me acompanhasse no caminho entre a parada de ônibus e minha casa.

Como sempre fui metida a moleca doida, no início eu nem liguei, vinha sozinha mesmo, na barbárie, como já estava acostumada a fazer. Mas como sempre o encontrava lá pela frente, fui pegando o gosto pela sua companhia, até que chegasse o tempo em que não havia um dia sequer que deixasse de ligar pra ele, nem tanto pela segurança, mas pelo prazer de estar na garupa de sua bicicleta, batendo um papo furado e pegando aquele ventinho da madrugada no rosto….

Daniel virou muito mais do que o guarda noturuno do meu conjunto. Virou meu brother. Meu Brotherzaço.

Tinha intimidade pra sacanear com a minha cara quando eu voltava “baleada” pra casa, conhecia meu dia-a-dia, minha rotina, falava da vida dele pra mim e sempre me convidava pra conhecer Primavera, a cidade do interior onde tinha parentes, pra gente “tomar muita gelada”.

Cançou de me esperar com um lanche lá na esquina, uma coca-cola, e me apresentou grande parte dos vendedores da vida noturna aqui no conjunto, inclusive o Erinaldo, ou “enxirinaldo”, como ele dizia só pra me ouvir dando gargalhada e que hoje virou um bom amigo também (o Erinaldo é um menino muito trabalhador que mora aqui na periferia do meu conjunto e vende pastel lá na frente. Sobre ele eu falo mais em outro post).

Quando o Daniel não estava de serviço (coisa muito rara, diga-se de passagem), ele desligava o celular, então eu já sacava e dava meu jeito de fazer meu percurso sozinha. A gente já tinha até arrumado um esquema pra ninguém gastar crédito: quando eu estava em frente à coca-cola, dava um toque no celular dele, aí quando descia da van lá estava ele em sua bike arrojada. Mandou até estofar a garupa pra acomodar melhor os clientes, digaê!

Mas aí no Domingo, voltando pra casa semi-baleada depois de ter encontrado uma galera despintada lá pelo carmo, liguei pro meu brother e ele não me antendeu. Estranhei, e quando desci da van fiquei no lanche esperando pra ver se ele aparecia, o que não aconteceu. Aí o Erinaldo apareceu e veio me deixar na bike morta de escrota que o pessoal da pastelaria empresta pra ele. A gente ficou se sacaneando e sacaneando o Danco, dizendo que ele tava era namorando, furando serviço.

Que querido esse Daniel

Entrei e dormi sem ouvir o apito estridente que ele insistia em fazer soar beeeem na minha janela.

E acordei com a pior notícia que 2012 poderia começar me dando.

Naquele domingo, Danco estava de folga, tomando uma breja no Sevilha, um outro residencial que fica aqui pertinho com um amigo e outro vigia noturno, de outra empresa, quando foi surpreendido com um tiro a queima-roupa. Ainda o colocaram em um taxi e o levaram para o hospital, mas ele não resistiu.

Quando minha mãe me contou, minha primeira reação foi: É MENTIRA. E fiquei me segurando na bizarra tradição que esse conjunto tem, de dizer que fulano morreu até que, do nada, fulano aparece vivinho da silva na tua frente.

Mas aí o Erinaldo bateu aqui na minha porta, me confirmando a tragédia.

Não me mobilizei para funeral, enterro, nada. Taí uma coisa que me destrói completamente. Prefiro manter a imagem do Daniel bem viva na minha memória, dele me perguntando quantas geladas eu tinha tomado, dizendo que tava planejando um festão no interior e que tava ficando com a perna grossa de tanto pedalar.

Nem quero entrar no mérito da discussão sobre o assassinato. Ouvi várias versões, mas é óbvio que meu amigo sempre foi um alvo em potencial uma vez que seu ofício era combater o baditismo em um conjunto pequeno burguês cercado de periferias. O Danco coordenava uma equipe de vigilantes, era respeitadíssimo e corria riscos todo santo dia por uma mensalidade de 30,00 reais.

Foi mais uma vítima dessa barbárie que a gente vive, mais um trabalhador fruto e vítima de um sistema onde a violência virou negócio.

Ontem, quando voltei pra casa, minha ficha caiu.

Perdi um cara importantíssimo na minha vida, um grande camarada.

Percebi que a partir de agora, minhas voltas pra casa serão de um vazio insuportável.

Estou órfã do meu anjo da guarda. 

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