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Carta ao Pai

8 de janeiro de 2012

Sou fissurada no Kafka, e o que me liga tão fortemente a ele é a tremenda identificação que tenho com sua visão de mundo, que ele consegue imprimir em suas obras com muita genialidade.

O Kafka dialoga com meu lado melancólico, enfadonho, seco, rude e visceral de um jeito que as vezes fico me perguntando se não poderia ser eu escrevendo aquilo tudo. Suas metáforas para descrever o mundo em que vive são de uma criatividade perturbadora, como a minha, por vezes, é. E esse sentimento de eterna clausura em uma sociedade que o reduz a um inseto gigante, cara, simplesmente me traduz.

 

 

Na adolescência, quando li “Carta ao pai”, o livro que traz a carta que Kafka escreveu para seu pai aos 36 anos, desaguando todas as angústias acumuladas no relacionamento entre eles, imediatamente me identifiquei com a temática que à primeira vista é abordada no livro.

Eu fui uma adolescente que viveu sob a sombra da figura paterna, não tão fortemente nem de maneira tão negativa como o autor, mas é inegável o peso de meu pai em minha formação.

Hoje, olhando mais profundamente para obra e com outra leitura de mundo, fico encantada como Kafka traduz em seu microcosmo familiar os dramas de uma sociedade patriarcal, que oprime dia após dia os apetites e desejos de seus filhos, enquadrando-os em molduras hierárquicas que insistem em ser imutáveis. Uma sociedade que poda suas possibilidades de livre pensar e agir e o submete às formas arcaicas de sobrevivência, julgando-as adequadas e prósperas.

Ontem fui assistir à peça “Pai e Filho”, da Pequena Companhia de Teatro, que materializou com primazia essa percepção ao adaptar a obra de Kafka para os palcos. Os atores encenaram um diálogo caloroso entre um pai opressor e um filho submisso, assustado, frágil, que teve sua vida costurada de acordo com o modelo pensado pelo pai. Ele resolve compartilhar suas mágoas com o genitor, que o rebate duramente e não aceita as avalições do filho.

O cenário e figurino são de uma rusticidade ultra criativa, onde os pontos das costuras nos objetos e nas roupas se destacam, ajudando a fortalecer a ideia de tecitura de um diálogo difícil.

Achei esse formato de diálogo interessante, porque na real, o pai de Kafka nunca leu a carta que lhe foi destinada.

A peça fez jus à obra do Kafka, sem dúvida. E foi no espaço Cuíra, um teatro localizado beeeem na zona de prostíbulos da cidade, que eu tava doida pra conhecer.

Um programão pra começar bem o ano. Deu vontade de reler os livros do Kafka que tenho e estão rolando aqui em casa.

Vou colocá-los na minha bibliografia para treinamento de heroína. =p

Hasta!

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